Título original: Resident Evil
Direção: Zach Cregger
Roteiro: Zach Cregger e Shay Hatten
Baseado em: Resident Evil, da Capcom
Produção: Robert Kulzer, Roy Lee, Miri Yoon, Asad Qizilbash, Carter Swan
Elenco principal: Austin Abrams (Bryan), Zach Cherry (Carl), Kali Reis (Maxine), Paul Walter Hauser (Paul), Johnno Wilson
Trilha sonora: Hays Holladay e Ryan Holladay
Direção de fotografia: Dariusz Wolski
Montagem: Joe Murphy
Companhias produtoras: Columbia Pictures, Constantin Film, Vertigo Entertainment, PlayStation Productions
Distribuidora: Sony Pictures Releasing
Gênero: Terror, Ação, Ficção Científica
Duração: 95 minutos (1h35min)
Classificação Indicativa: R 18+ (violência sangrenta intensa, linguagem forte, gore)
Orçamento: US$ 75 a 80 milhões
Data de estreia: 15 de setembro de 2026 (première em Los Angeles) / 18 de setembro de 2026 (Estados Unidos e demais países)
Site Oficial: Sony Pictures
SINOPSE:
Resident Evil gira em torno de Bryan (Austin Abrams), um entregador de medicamentos que está a caminho do Hospital Geral de Raccoon City para deixar uma encomenda. No entanto, o que deveria ser apenas mais uma entrega em uma noite de neve se transforma em uma corrida desesperada pela sobrevivência quando criaturas estranhas surgem na cidade. Sem entender o que desencadeou os eventos violentos que estão acontecendo, Bryan liga para a sua namorada para se despedir e tenta encontrar uma saída enquanto descobre que o problema é muito maior do que imaginava. O longa se passa no mesmo universo da famosa franquia de videogames da Capcom e conta uma história original.
Falar sobre o novo Resident Evil exige, antes de qualquer coisa, encarar de frente a pergunta que qualquer fã de longa data vai fazer assim que os créditos sobem: isso ainda é Resident Evil? A resposta, honestamente, é complicada, e talvez seja exatamente essa ambiguidade o ponto mais interessante do filme. Zach Cregger troca Raccoon City ambientada nos anos 90, período clássico dos jogos, por uma reimaginação passada em 2026, na neve, protagonizada por Bryan (Austin Abrams), um entregador de medicamentos comum que se vê arrastado para dentro de um surto viral em uma única noite catastrófica. Não há continuidade explícita com a linha do tempo dos jogos, não há promessa de sequência para esse protagonista específico, e a decisão mais corajosa do roteiro é justamente essa: contar uma história que começa e se fecha sozinha, sem deixar brecha para continuidade, a não ser, talvez, uma prequel, se Cregger tiver a mesma coragem que teve aqui.
É importante reconhecer que essa escolha vai incomodar fãs mais devotos da franquia, e com razão. Não existem Leon, Claire, Jill ou Chris. Não há RPD, não há Licker, não há Tyrant. Em vez disso, os monstros que perseguem Bryan ao longo da noite são criações originais, e vale dizer, genuinamente bizarras e bem concebidas: massas humanas fundidas em criaturas de múltiplos braços e pernas, vomitadores de ácido, mutações grotescas que crescem e se acumulam conforme avançam atrás do protagonista, numa busca incansável por carne. Não são reinterpretações dos monstros consagrados dos jogos, são horrores próprios daquele universo específico contado pela primeira vez. Quanto à Umbrella Corporation, é verdade que não existem citações diretas a nomes como Wesker ou Spencer, e a corporação nunca é explorada a fundo. Mas ela está presente, sim: o filme a apresenta como a fachada de um hospital aparentemente comum, cujos andares superiores escondem laboratórios sinistros, revelados ao longo da trama como a origem real do surto que consome Raccoon City naquela noite.
E é exatamente aí que mora o argumento mais forte a favor do filme: contar uma história de Resident Evil pelos olhos de alguém absolutamente comum, sem treinamento, sem arma na cintura, sem instinto de sobrevivência refinado por anos de combate, é uma ideia genuinamente inspirada. A franquia, tanto nos jogos quanto nas adaptações anteriores para o cinema, sempre girou em torno de heróis, pessoas que, de um jeito ou de outro, escapavam, se tornavam competentes, se transformavam em símbolos de resistência contra o apocalipse viral. Zach Cregger faz o oposto completo disso. Bryan não ganha um escudo de roteiro. Ele não sai voando de helicóptero ao pôr do sol como tantos protagonistas fizeram antes dele. Ele é mordido, infectado, e ao longo do filme o espectador acompanha, com um misto de esperança e dread crescente, a possibilidade remota de que ele consiga se curar, reconciliar com a namorada e finalmente aceitar a ideia de formar uma família, algo que o próprio filme planta desde o início, quando o medo de ser pai afasta Bryan da mulher que ama. Há até uma ironia visual cruel nisso: em determinado momento, Bryan atravessa uma espécie de berçário dentro das instalações da Umbrella, completamente distorcido e ensanguentado, um símbolo de nascimento pervertido bem no meio de sua jornada de sobrevivência.
O desfecho do filme não poupa ninguém. Todos os cientistas que poderiam desenvolver ou aplicar uma cura em Bryan acabam mortos antes de conseguir concluir o processo. A cura nunca é aplicada, e nunca é sequer entregue à cidade que dependia dela. Bryan se transforma completamente, tornando-se uma aberração monstruosa sem qualquer resquício de consciência, e nesse estado ele mata todos ao seu redor. A cena final mostra a criatura em que ele se tornou no topo do prédio da Umbrella, enquanto dois helicópteros se aproximam e o iluminam com holofotes. A criatura ruge, e o filme termina ali, de forma abrupta e deliberadamente inconclusiva. Não sabemos se a cura foi encontrada em algum outro lugar, se a criatura foi abatida pelos helicópteros, se a cidade foi bombardeada como medida de contenção, ou se o vírus escapou para o resto do mundo. Nada disso é mostrado, tudo fica em aberto, à interpretação do espectador. É um final corajoso justamente por essa recusa em entregar qualquer fechamento reconfortante: ninguém, em nenhum momento dessa história, é mostrado vencendo.
No fim, ele não se salva. A mordida vence, e Bryan se transforma exatamente naquilo que passou o filme inteiro fugindo, uma massa monstruosa sem consciência, apagando por completo o personagem humano e carismático que o espectador acompanhou até ali. Ninguém sobrevive nessa história. Não existem heróis em Resident Evil (2026), apenas pessoas comuns, sem sorte alguma, engolidas por algo maior do que qualquer capacidade humana de reação. É um final duro, sem redenção, e profundamente eficaz justamente por recusar o consolo fácil.
Sobre se o filme merece carregar o nome Resident Evil, a resposta honesta é que essa é uma pergunta ambígua por natureza, e provavelmente sempre será. É verdade que, com pequenos ajustes de nomenclatura, essa poderia facilmente ser uma história de terror original independente da licença. Mas também é verdade que existe ali uma reinterpretação genuína da franquia, usando pontos de vista, situações e ângulos nunca explorados antes dentro desse universo. O fã que for assistir esperando reencontrar seus heróis favoritos ou uma fidelidade rígida aos jogos vai, sem dúvida, se decepcionar, e esse é um direito legítimo de qualquer fã ter. Mas quem for disposto a encarar o filme como uma dissecação nova da mitologia, sem as amarras da nostalgia, vai encontrar uma experiência genuinamente interessante.
Um argumento que merece ser desmontado é o de que o tom mais atmosférico e lento de Cregger, já conhecido de Barbarian e A Hora do Mal, trairia a essência mais voltada à ação que a franquia consolidou nos cinemas. Esse argumento ignora a própria história de Resident Evil como franquia de jogos: comparando Resident Evil, Resident Evil 2 e Resident Evil 4, fica claro que a série nunca se prendeu a um único gênero. O terror atmosférico e lento da Delegacia de Raccoon City e da Mansão Spencer, vivido por protagonistas inexperientes enfrentando o desconhecido pela primeira vez, é tão Resident Evil quanto a ação inconsequente de um Leon já veterano em Resident Evil 4. O filme de Cregger recupera exatamente esse tom inicial, o de alguém absolutamente despreparado mergulhado em um pesadelo incompreensível, e isso não é uma traição ao material de origem, é um retorno às raízes que a franquia parece ter esquecido em suas adaptações cinematográficas anteriores. O humor mais galhofeiro e humano presente no filme também não destoa: Resident Evil sempre carregou esse tipo de alívio cômico entre seus momentos mais tensos, mesmo nos jogos mais sérios.
Quanto à duração de apenas 95 minutos, ela se mostra suficiente para o que o filme se propõe a fazer. Bryan recebe tempo de tela adequado para que o espectador goste ou odeie dele exatamente pelo que ele é: desastrado, desatento, medroso, inexperiente. Sua jornada é cruel do início ao fim, desenvolvida o suficiente para transformar um personagem comum em alguém que o público realmente acompanha emocionalmente antes de entregá-lo ao único final que, trágica e inevitavelmente, sempre esteve reservado para ele.
A atuação de Austin Abrams merece destaque especial dentro dessa proposta. Ele dá vida genuína a um protagonista azarado, do tipo que só precisava ter recusado aquela hora extra e ido para casa em vez de aceitar entregar um antivírus em Raccoon City naquela noite específica. Bryan xinga, se desespera, tem seus momentos de humor nervoso e falhas humanas visíveis, e é justamente essa humanidade desajeitada que sustenta o filme, é um dos pontos altos da produção.
A direção de fotografia também impressiona pela construção de tensão. Cregger opta por câmeras em primeira pessoa em determinados momentos, um aceno direto aos jogos mais recentes da franquia, e constrói uma ambientação sombria, macabra e claustrofóbica que remete diretamente ao clima clássico da série. Os fãs mais atentos vão notar diversas referências espalhadas pela produção, uma máquina de escrever, uma espingarda pendurada na parede, esgotos labirínticos, pequenos detalhes que funcionam como aceno carinhoso para quem cresceu com os jogos, mesmo dentro de uma história que se recusa a depender diretamente deles. A trilha sonora, por sua vez, cumpre seu papel de forma competente, sem ser particularmente memorável ou se destacar isoladamente, mas reforçando bem a tensão constante do filme.


