É possível assistir a "A Odisseia" em salas IMAX no Brasil, mas não exatamente da forma como Christopher Nolan projetou a experiência ideal para o filme. O país conta com diversas salas IMAX, incluindo o UCI New York City Center, no Rio de Janeiro, o Cinépolis JK Iguatemi, em São Paulo, o Cineart Boulevard, em Belo Horizonte, e o IMAX Palladium, em Curitiba — mas todas elas utilizam sistemas de projeção digitais. Nenhuma é equipada com o sistema IMAX 70 mm em película, formato escolhido por Nolan para filmar o longa por completo.
Um formato raro no mundo todo
Essa diferença vai muito além de como a imagem chega à tela. Ela envolve projetores que praticamente pararam de ser fabricados, imensas películas de 70 milímetros e uma infraestrutura que hoje sobrevive em apenas 41 cinemas comerciais espalhados pelo mundo. Os Estados Unidos concentram a maior parte, com 24 salas, seguidos pelo Canadá, com seis. Reino Unido, Bélgica, República Tcheca, França, Itália e Austrália completam a lista — o Brasil não tem nenhuma unidade nesse formato específico.

Vale destacar que isso não significa a ausência total de salas IMAX no país: a rede possui mais de 1.800 unidades ao redor do mundo, a maioria operando com sistemas digitais, incluindo o IMAX Laser, que usa dois projetores 4K a laser para entregar mais brilho e contraste. A sala de destaque no Brasil é a do Cinépolis JK Iguatemi, em São Paulo, inaugurada no ano passado e a única da América Latina patrocinada diretamente pela IMAX — mas ainda assim, uma sala digital.
Por que reconstruir os projetores de película é tão difícil
A projeção digital começou a substituir a película em ritmo acelerado a partir dos anos 2000, já que os projetores IMAX 70 mm exigiam manutenção especializada e operadores treinados, uma estrutura muito mais cara do que os sistemas digitais. Segundo Richard Gelfond, CEO da IMAX, não faz sentido comercial retomar a fabricação desses equipamentos — a estratégia atual é restaurar e manter em funcionamento os projetores históricos que sobreviveram. Estimativas indicam que recuperar e instalar um único sistema de 70 mm pode custar cerca de US$ 1,2 milhão, mesmo sem desenvolver um projetor novo do zero.
O que torna a experiência tão diferente
Apenas os sistemas IMAX GT Laser e IMAX 70 mm conseguem preencher a tela na proporção 1,43:1, considerada a experiência máxima da marca. Já o IMAX Digital e o IMAX Laser convencional usam uma área menor de tela, geralmente na proporção 1,90:1. Isso significa que, em uma sala com projeção completa, o espectador enxerga uma área de imagem consideravelmente maior acima e abaixo do quadro visto em cinemas convencionais.
A cópia de "A Odisseia" em película chega a cada cinema em três estojos de transporte, que técnicos especializados unem em um único rolo por meio de um processo chamado splicing. Cada cópia final tem entre 58 mil e 60 mil pés de película — cerca de 18 quilômetros —, uma das maiores já distribuídas comercialmente. Curiosamente, embora o formato seja chamado de "IMAX 70 mm", as câmeras gravam em negativo de 65 mm; os 5 milímetros adicionais nas cópias de exibição vêm de uma padronização histórica ligada ao antigo áudio magnético.
Um legado de décadas
Quando Nolan estreou como diretor com "Following", em 1998, o IMAX já era uma tecnologia consolidada havia décadas — a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas chegou a premiar um dos sistemas de projeção IMAX de 70 mm em 1997. Desde então, o cineasta se tornou o maior defensor contemporâneo do formato, convencendo estúdios a produzir cópias em película e atraindo espectadores dispostos a pagar mais caro — e até viajar horas — para assistir aos seus filmes da forma como foram concebidos.


