A suspensão das transmissões ao vivo do Discord no Brasil pegou muita gente de surpresa nos últimos dias e reacendeu uma dúvida comum: será que uma medida parecida já havia acontecido em outros países? A resposta é sim — e alguns lugares foram bem mais longe do que a decisão brasileira.
Em 12 de agosto de 2026, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou que o Discord suspendesse no país a função Go Live, usada para transmissões ao vivo, além de recursos equivalentes de compartilhamento de tela, dando à empresa um prazo de três dias úteis para cumprir a determinação — o que o próprio Discord confirmou estar fazendo. Segundo a ANPD, a medida partiu de evidências de que a plataforma não adotou proteções suficientes contra riscos envolvendo crianças e adolescentes, como violência, assédio, automutilação e suicídio, além de questões relacionadas à verificação de idade e à remoção de conteúdo.
É importante deixar claro: o Discord não foi bloqueado no Brasil. Mensagens, servidores, canais de texto e chamadas de áudio seguem funcionando normalmente — a restrição atinge apenas o Go Live e funcionalidades semelhantes de vídeo. Ainda assim, a investigação da ANPD segue aberta e pode resultar em multas de até R$ 50 milhões por infração, caso irregularidades sejam confirmadas.
Fora do Brasil, existem pelo menos dois casos bem documentados de bloqueio nacional completo da plataforma: Rússia e Turquia. Na Rússia, o Discord já vinha sendo pressionado havia meses, recebendo multas por não restringir conteúdos ilegais e sendo obrigado a remover materiais relacionados a abuso infantil, drogas e extremismo. Como a empresa não atendeu ao ritmo exigido pelas autoridades, o Roskomnadzor, órgão russo de fiscalização das comunicações, bloqueou totalmente o acesso ao aplicativo no país em outubro de 2024.
Na Turquia, o bloqueio ocorreu praticamente na mesma época, mas por outro motivo: uma decisão judicial determinou a suspensão do Discord após suspeitas de que a plataforma estava sendo usada para disseminar conteúdo relacionado a abuso sexual infantil e material obsceno, em um caso que ganhou força após um crime que chocou o país e cujo conteúdo relacionado circulou em comunidades do aplicativo.
Já a China mantém o Discord bloqueado desde 2018 como parte do amplo sistema de censura conhecido como Great Firewall, sem relação com um episódio específico envolvendo a plataforma — situação semelhante à do Irã, onde bloqueios ao domínio do Discord também fazem parte de uma política mais ampla de restrição a serviços internacionais. Já os Emirados Árabes Unidos representam um caso mais parecido com o brasileiro: desde 2016, o país exige licenciamento para serviços de VoIP, o que resultou no bloqueio específico da função de chamadas de voz e vídeo do Discord, sem tirar o aplicativo do ar por completo.
Colocando os casos lado a lado, o Brasil está, por enquanto, mais próximo da abordagem adotada pelos Emirados Árabes Unidos — restringir uma função específica — do que da linha dura seguida por Rússia e Turquia. Não há, neste momento, qualquer decisão de banimento total da plataforma no país, mas a investigação da ANPD continua em andamento e pode resultar em novas exigências nas próximas semanas.



