Christopher Nolan não costuma sair para elogiar outros filmes em entrevistas. Quando o faz, vale prestar atenção. Em uma conversa com o jornal britânico The Telegraph sobre The Odyssey, seu próximo projeto, o diretor de Oppenheimer e Interstellar foi contundente ao defender o estado do cinema atual — e dois títulos em especial serviram como suas provas concretas.
Os filmes são Backrooms e Obsession, ambos de 2026, ambos produzidos com orçamentos reduzidos por diretores jovens saídos da internet, e ambos transformados em fenômenos de bilheteria que ninguém no setor havia previsto com essa magnitude.
Os números que dão peso ao argumento
Backrooms, dirigido por Kane Parsons, então com 21 anos, e distribuído pela A24, tornou-se o filme de maior arrecadação da história do estúdio. Para Nolan, o título evoca comparações com o cinema de David Lynch em seus momentos mais opacos e simbólicos.
Obsession, dirigido por Curry Barker, de 26 anos, foi ainda mais longe nas proporções: com um orçamento inferior a US$ 1 milhão, o filme ultrapassou franquias como Star Wars nas bilheterias e entrou na lista dos filmes mais lucrativos de todos os tempos em termos de retorno proporcional ao investimento.
Nolan foi direto ao reconhecer o trabalho desses diretores:
"Acho que o cinema é vital e essencial e continua se transformando, temos todas essas ótimas novas vozes jovens no cinema, tornando o meio seu e o levando adiante."
A defesa da capacidade de atenção da Geração Z
Um dos argumentos que Nolan escolheu rebater diretamente é a ideia de que jovens perderam a capacidade de acompanhar filmes longos e narrativamente densos. Para ele, o sucesso de Backrooms e Obsession invalida essa premissa.
"É por isso que nunca me convenci com o argumento de que a capacidade de atenção do público jovem está esgotada demais para apreciar uma epopeia grega de três horas", disse ele. "Esses filmes são tão misteriosos e reflexivos. Quero dizer, algumas partes de Backrooms lembram David Lynch em seus momentos mais obscuros. E, no entanto, os jovens adoram."
O aviso sobre a inteligência artificial
Mas a parte mais provocativa da entrevista foi a posição de Nolan sobre o uso de IA generativa no cinema. Ele foi categórico, e usou o sucesso de Backrooms e Obsession — ambos construídos com efeitos práticos e sem IA — como evidência de uma virada cultural que ele interpreta como uma rejeição coletiva.
"Nunca vi uma rejeição coletiva tão rápida de um suposto avanço tecnológico fundamental na minha vida", declarou. "Tanta energia foi gasta para implementar a IA, mas se você olhar para a reação dessa geração, eles estão rejeitando completamente."
Para calibrar esse julgamento, Nolan usou seus próprios filhos como termômetro:
"O julgamento deles sobre o AI slop foi imediato e severo. Eles enxergam o que é muito rapidamente, e é muito mais fácil para eles identificarem, porque isso cresceu dentro de um mundo online que eles conhecem muito bem."
A conclusão foi direta:
"Depois de anos avançando em direção a ambientes fortemente virtuais, estamos vendo um interesse renovado em formas de narrativa mais táteis e mais reais."
Para Nolan, o uso de IA no cinema está chegando "exatamente na hora errada."


