Título original: Forgotten Island
Direção: Joel Crawford e Januel Mercado
Roteiro: Joel Crawford e Januel Mercado
Produção: Mark Swift
Elenco de vozes originais: H.E.R. (Jo), Liza Soberano (Raissa), Dave Franco (Raww), Lea Salonga (Manang/Manananggal), Manny Jacinto (Bungi Tiyanak), Jenny Slate (Batibat), Dolly de Leon (Lola Fatima), Jo Koy, Ronny Chieng (Rei Trufo Fucho)
Elenco de vozes dubladas (Brasil): Victor Sarro (Raww), Gustavo Machado (Príncipe Sereio)
Companhia produtora: DreamWorks Animation
Distribuidora: Universal Pictures
Gênero: Animação, Aventura, Comédia, Família, Fantasia
Duração: 98 minutos (1h38min)
Data de estreia: 24 de setembro de 2026 (Brasil) / 25 de setembro de 2026 (Estados Unidos)
Site Oficial: Universal Pictures / DreamWorks Animation
Sinopse :
A Ilha Esquecida se passa nas Filipinas na década de 90 e acompanha duas melhores amigas de infância chamadas Jo e Raissa que prometem permanecer juntas para sempre. Recém-formadas no ensino médio, as duas agora, porém, seguirão caminhos distintos, com Raissa prestes a se mudar para os Estados Unidos. Enquanto celebram sua última noite juntas, as duas acabam encontrando um portal misterioso que as transporta para a fantástica ilha de Nakali. De repente, as duas se encontram rodeadas de criaturas mágicas e mitológicas retratadas nas histórias tradicionais contadas por suas famílias filipinas. Mas o fascinante lugar esconde uma pegadinha brutal: suas memórias gradualmente desaparecem quanto mais tempo você permanece lá dentro. Logo, quando descobrem que as lembranças de toda a sua amizade são o preço a pagar para voltarem para casa, as amigas correm contra o tempo para encontrar uma forma de deixar a ilha antes de se esquecerem uma da outra para sempre.
A Ilha Esquecida chega com uma expectativa relativamente baixa, o tipo de animação que, à primeira vista, parece mais uma entrada genérica no already saturado gênero de amizades de infância se despedindo na virada para a vida adulta. E, de fato, o filme não foge dessa temática batida: Jo e Raissa são melhores amigas desde a infância que, prestes a seguir caminhos diferentes após o fim do ensino médio, encontram na Ilha Esquecida, o reino mágico de Nakali, uma última aventura para reviver o vínculo que construíram ao longo dos anos. A estrutura segue o esperado: a dupla se diverte tanto que a amiga que ficaria para trás tenta, por todos os meios, prolongar aquele momento; a outra descobre a manipulação; surge o conflito; e o filme caminha para uma reconciliação. Não é um roteiro extraordinário, nem tenta ser. É, para usar um termo mais honesto, um genérico bem feito.
E é exatamente nesse "bem feito" que o filme se sustenta. Vindo da mesma dupla de diretores por trás de Gato de Botas 2: O Último Pedido, indicados ao Oscar, A Ilha Esquecida entrega uma experiência visual absolutamente estonteante, sem dúvidas o ponto mais alto de toda a obra. A animação da ilha de Nakali é excelente, maravilhosa e impecável, com efeitos visuais que comprovam o pedigree técnico de seus criadores. As criaturas que habitam esse mundo são particularmente bem trabalhadas nesse quesito: a Manang, a temida Manananggal, se destaca especialmente, cada uma de suas aparições acompanhada de animações específicas de vibração que, somadas aos efeitos sonoros, chegam a fazer a própria sala de cinema tremer. É um nível de capricho técnico raro, do tipo que eleva até os momentos mais previsíveis do roteiro através da pura força visual.
Apesar da previsibilidade estrutural, existe um cuidado genuíno na forma como o filme constrói a relação entre suas protagonistas. Um dos melhores exemplos disso é o uso recorrente de uma analogia sobre asas ao longo da trama. No início, tomada pela raiva, Raissa acusa Jo de sempre "puxá-la para baixo". No clímax do filme, já lutando para salvar as memórias de ambas, ela reconstrói essa mesma frase, entendendo que a amiga, na verdade, sempre a impulsionou para cima. É um recurso simples, mas bem construído, que resume bem como o filme lida com sua própria previsibilidade: mesmo sabendo onde a história vai chegar, a jornada até lá é conduzida com sensibilidade suficiente para funcionar emocionalmente.
O elenco de criaturas ao redor da dupla também cumpre seu papel com competência. Raww, o lobisomem-cachorro desastrado dublado por Dave Franco, funciona bem como alívio cômico, engraçadinho mesmo sendo bobinho na maior parte do tempo, sem grandes ambições além de arrancar risadas nos momentos certos. Já a Batibat surpreende positivamente ao fugir do destino mais óbvio para sua personagem. Ao longo do filme, suas ações sugerem fortemente um desfecho mais trágico, mas o roteiro opta, em vez disso, por um arco de redenção: a criatura, que rouba memórias alheias, passa a entender o real valor daquilo que tomava das pessoas, devolve o que roubou, e, com a ajuda de Jo, decide finalmente construir suas próprias memórias em vez de viver às custas das memórias dos outros. É um dos raros momentos em que o roteiro escolhe surpreender ao invés de seguir o caminho mais previsível. As demais criaturas da ilha, incluindo o Bungi Tiyanak e o Rei Trufo Fucho, cumprem função sem se destacar além disso, engraçadas e competentes, mas sem deixar uma marca tão forte quanto a Batibat ou a Manang.
A trilha sonora também merece elogios, especialmente em sua aplicação estratégica: as composições emocionais surgem justamente nos momentos de maior conflito e suspense, e funcionam muito bem quando entram em cena, mesmo que sua presença seja mais discreta em outros trechos do filme. É um uso funcional, que reforça a emoção sem tentar carregar o filme sozinho.
Vale destacar também a ambientação cultural do longa. Embora não seja possível avaliar com propriedade o quanto a mitologia filipina, presente através de criaturas como a Manananggal, o Tiyanak e a própria Batibat, foi representada com fidelidade ao folclore original, é perceptível ao longo do filme um esforço genuíno em trazer essas referências culturais filipinas para o centro da narrativa, algo que soma bastante à identidade visual e temática da produção.
O desfecho, por fim, resume bem o que é A Ilha Esquecida como um todo: justo, eficiente dentro da proposta que se compromete a entregar, mas previsível o suficiente para não surpreender ninguém que já tenha visto qualquer animação sobre amizades de infância antes. Não é um final memorável, mas também está longe de decepcionar.
No fim das contas, A Ilha Esquecida é recomendável principalmente para crianças e para o público que gosta de animações no geral. Não é um filme que vai agradar a todo mundo, tampouco um marco do gênero, mas cumpre sua proposta de forma competente e visualmente deslumbrante, um genérico bem feito que aposta na execução para compensar a falta de originalidade.


